
Morte e sexo. Dois elementos que parecem impossíveis de caminhar juntos, mas que são as obsessões de Alan Ball. Chamei Ball de gênio depois da primeira temporada de True Blood, onde seu único trabalho foi passar para a TV personagens e histórias que já haviam sido criados por Charlaine Harris, mas seu verdadeiro triunfo na TV veio sete anos antes da série dos vampiros promíscuos e dois anos depois do Oscar pelo roteiro de Beleza Americana; em Six Feet Under, o mérito é todo dele.
Enquanto sexo e morte em True Blood são conceitos que quase sempre andam juntos (vampiros e humanos copulando é praticamente necrofilia), em Six Feet as coisas são mais separadas, mas ainda assim elementos essenciais e sempre presentes. O que pode ser motivo de repulsa é, na verdade, o que atraiu o público na época da exibição (de 2001 a 2005) e o que continua a atrair espectadores tardios, como esse que vos escreve. E, claro, as declarações de que é uma das melhores séries já feitas. Existe algo de fascinante por trás da família que mora em uma casa funerária e a casualidade com que tratam a mortalidade alheia, mesmo com psicológico fragmentado dos Fisher por trás da fachada consistente que precisam dar à tapa todos os dias seja no trabalho, na escola ou nos relacionamentos.

Nathaniel Fisher, pai da família Fisher e diretor da funerária Fisher e Filhos, morre em um acidente de carro a caminho do aeroporto para buscar seu filho mais velho Nate, vindo de Seattle para o Natal. Nate nunca se identificou com o negócio de família, por isso saiu de casa aos 18 anos levando consigo vários daddy issues. Agora se vê preso em Los Angeles com uma funerária para cuidar, um irmão-sócio cujo único objetivo era ter a aprovação do pai, a mãe com peso na consciência por ter traído o pai durante 2 anos com seu cabeleireiro e uma irmã meio problemática – e ainda assim, a mais normal da família. Como se isso não fosse o suficiente, ainda precisa lidar com a família desajustada da namorada igualmente estranha e misteriosa que conheceu no vôo de Seattle. Tudo isso enquanto Rico e David preparam os cadáveres no porão para os funerais.
Nate nunca conheceu o pai. Não de verdade, pelo menos. Ao finalmente assumir o papel de diretor de funerária (mesmo ainda não tendo passado no teste para conseguir sua licença), descobriu que a Fisher e Filhos não era só um negócio para Nathaniel. Visava o lucro sim, afinal, alguém precisava alimentar as crianças, mas Nathaniel se importava com o momento mais crítico e sensível da vida de uma pessoa: dar adeus e enterrar um ente querido. Por isso dava descontos especiais e já fez funerais em troca de favores e serviços, como nunca mais precisar pagar um mecânico, um suprimento mensal de maconha e um quarto secreto onde pudesse se ver livre daquela loucura toda de vez em quando. Nathaniel era bem humorado, uma ótima pessoa e tinha orgulho de Nate justamente porque ele teve a coragem de se rebelar e sair de casa. E é aí que as daddy issues começam a ir embora.

Claire, a irmã mais nova da família, é carente e desesperada por contato humano, mesmo que inconscientemente. Depois de confirmar que sua relação com a mãe não é uma relação de mãe e filha normal durante uma visita à casa de uma prima que fazia aulas de spinning com a filha, se interessava pelos mesmos homens que ela e davam demonstrações públicas de afeto durante um jantar enquanto a TV transmitia Gilmore Girls, Claire começou a dar sinais de sua grande falta de julgamento. Começou se encontrando com o irmão desvirtuado e bipolar de Brenda, Billy (que acabou a temporada internado depois de arrancar à faca uma tatuagem que ele e Brenda fizeram combinadas e ao tentar arrancar a de Brenda à força também), até que levou um pé na bunda sem mais nem menos, ficou mal falada na escola depois que o boato (verdadeiro) de que havia chupado os pés de Gabriel Dimas (a pedido do mesmo) se espalhou e, quando a poeira abaixou mais para o final da temporada, voltou a se relacionar com Gabe e está apaixonada. Pensa ser uma boa influência para o rapaz, mas ele teve uma overdose proposital e anda roubando lojas de conveniência à mão armada por aí.
A série está cheia de grandes diálogos, mas gosto principalmente das poucas cenas em que Claire conversa com o conselheiro da escola. Foi lá que ela disse que sua família está sempre tão preocupada em ser sensível com os enlutados a todo momento que aprenderam a ser quase invisíveis – menos Nate, que perdeu o processo de invisibilidade ao sair de casa. Por isso, todos os personagens têm cenas onde se imaginam fazendo certas coisas, mas são “covardes” (por falta de uma palavra melhor) o suficiente para fazerem-nas e expressam seus sentimentos de felicidade em forma de uma cena musical em suas cabeças (mesmo que isso só tenha acontecido duas vezes). Como David gritando em um funeral e os momentos musicais dele e de Claire.
As cenas em que imaginam coisas relacionadas a outros personagens também são ótimas, como a imaginação dos filhos quando Ruth lhes apresenta o cabeleireiro Hiran, David se imaginando sendo aplaudido na igreja e Ruth imaginando uma cena sado masoquista quando vê um cara saindo do quarto de David. Só Nate não tem tais cenas de imaginação, já que ele realmente vive e não se esconde. Fala o que vem à mente, faz o que acha necessário ser feito e não apenas se imagina fazendo. David inclusive tem conversas metafóricas com alguns dos corpos que prepara, como o da atriz pornô Viveca St. John (interpretada pela também atriz e diretora de filmes adultos Veronica Hart) e o do garoto vítima de um crime de ódio: foi espancado na rua por ser gay.

David é gay e até tinha um namorado no começo da temporada, mas o relacionamento acabou devido à sua incapacidade de se assumir e a vergonha que sentia por ser o quem é. É diácono de uma igreja cujos outros membros não aceitam muito bem a homossexualidade, cargo que era de seu pai. Depois de entrar no mundo do sexo casual, se envolver com um professor de dança que lhe ofereceu êxtase (que ele tomou e fez com que sua mãe também tomasse acidentalmente), fazer sexo desprotegido com um garoto de programa em Las Vegas e Angela, a restauradora que fala tudo o que vem à mente que entrou no lugar de Rico por apenas um episódio, David finalmente se assumiu para a mãe e colegas de igreja.
Os episódios finais da temporada foram focados na decisão de David e na falta de julgamento de Claire, mas ainda assim foram fracos em comparação com o resto da temporada. Não ruins, mas também não tão impactantes. Os ataques e perseguições de Billy não surtiram o efeito necessário em mim. Mas talvez aquela uma semana que levei entre o episódio 8 e 9 (o que, quando se trata de uma maratona onde uma temporada vai inteira em questão de dias, é equivalente a uma mid-season) tenha me esfriado um pouco.
Sou acostumado a final de temporada ser sinônimo de cliffhanger, então talvez por isso eu não tenha gostado muito do último episódio. Teve o acidente de carro, teve Nate descobrindo sua doença, mas foi só. E não ficou muito mistério para depois. Nada que o faça se sentir obrigado a assistir a próxima temporada para ver como a história vai se resolver. Mas também nada que tire a genialidade do negócio. Foi um final feliz que simbolizou o começo e o fim da vida, com a festa de batizado de Augusto (filho de Rico, empregado da Fisher e Filhos) na mesma sala onde acontecem os velórios. Uma season finale que poderia ter se passado por series finale. Exceto que ainda temos 4 temporadas pela frente e Six Feet Under não é uma série que você decide se continua ou não baseado nos acontecimentos do último episódio. São apenas 13 episódios por temporada que valem mais do que muita temporada de fall season por aí. Já comecei a segunda temporada e, se continuar no mesmo ritmo da primeira, não me admiram todas aquelas declarações de que Six Feet Under seja uma das melhores séries já feitas.








Só assisti a primeira temporada, a um bom tempo atrás, mas só ela já me deixu convencido da genialidade de Alan Ball. Quase fui assistir True Blood depois. Só larguei porque era complicado, eu tinha que assistir tudo de noite.
As melhores cenas são sempre as que passam na imaginação dos personagens, o musical foi bem divertido e um momento WTF dos melhores. O episódio final, também achei meio fraco, sei lá, a história da doença não me convenceu muito.
Achei a primeira temporada incrível. Acho que bate True Blood na genialidade. É original. Já estou na metade da 2ª temporada e achando tão sensacional quanto. Acho que até o final da semana já tem review dela, hehe.
Valeu pelo comentário!
Six Feet é minha terceira série favorita, após Sopranos e The West Wing. As temporadas 3 e 4 são menos boas, mas em todas temos um constante desenvolvimento dos personagens – e mesmo Rico tem um papel importante na história.
Fiquei com vontade de rever este começo, quando David e Nate ainda não sabiam o que queriam do futuro (na verdade, acho que eles nunca sabem). Siga firme, mesmo quando não estiver tão entusiasmado – porque a última temporada é simplesmente magnífica, com 3 ou 4 episódios entre os mais fortes que já vi, contando todas as séries…
Sopranos e West Wing já estão na minha watchlist de 2011. Quando eu estava reclamando nas reviews da 3ª temporada de True Blood, me disseram que Alan Ball deveria ter problemas com 3ªs temporadas, já que a de Six Feet também foi fraca. Mas depois de uma temporada (e meia, já que estou na metade da 2ª no momento) como essa e um final já definido, não vou desistir depois de uma maré baixa.
Valeu pelo comentário!
Seja forte.. a 3ª muita gente reclama, mas eu gostei. A 4ª que achei mais fraca. Mas a última é brilhante.
E são todas temporadas pequenas, então tem que ver mesmo!
Dud's, que saudade de Six Feet! Assisti em forma de maratona, assim como vc, ano passado.. e sem dúvida entrou para minha lista de séries obrigatórias para qqr fã do gênero..
Confesso que não lembro da finale, mas acho que é pq esse não é o ponto forte da história.. Os destaques ficam mais para o desenvolvimento do que para os ganchos finais.. embora, sem spoiler, eu possa dizer que os ultimos minutos da series finale façam valer toda e qualquer reclamação..
Adorava a parte da imaginação dos personagens.. o comercial da funerária é uma das melhores coisas logo do começo.. e Michael C. Hall e Peter Krause são incríveis.. Claire demorou a me convencer, mas o relacionamento e a surrealidade da mãe, vai se tornando ainda mais interessante..
Espero que não se deixe abalar pelas críticas de seu pai pelas cenas.. meio que politicamente incorretas.. e não desanime! =)
Os comerciais eram no Piloto, mas não eram da funerária em si; eram de produtos pra restauração, caixões… genial!
Sobre o Michael C. Hall não tem nem o que dizer. Já Peter Krause pra mim não é muito excepcional, mas adoro o Nate. Gostei da Claire, mas ela me irritou um pouco as vezes. Voltar com o Gabe? Seriously? Mas na 2ª temporada ela tá mais legal.
Já aprendi a não assistir na hora do almoço nem depois das 18h (se for pra ser depois das 18h, que seja no computador, com fone de ouvido) ou em nenhum momento em que eles estejam rondando a sala de TV, hahaha. Se bem que tá todo mundo muito puritano na 2ª temporada, viu. To decepcionado.
Obrigado, Carlinha! =D
Concordo em gênero,número e grau com o artigo.Infelizmente,eu acompanhava a série pelo SBT e até que passou em um horário decente durante um tempo,mas logo foi transferida para o início da madrugada e depois para o meio da madrugada e daí sabe-Deus para onde foi.Só assisti a 1ª temporada e os dois primeiros episódios da 2ª.Espero que o SBT volte a exibi-la.Vale como curiosidade lembrar que quando a Globo discutia se devia exibir o beijo gay da novela AMÉRICA,o SBT já exibia os beijos ardorosos do David nas noites de quarta no mesmo horário da novela e ninguém dizia nada.
Pois é, a Globo sempre com esse puritanismo sem fundamento. Mas Six Feet era HBO, canal fechado até nos Estados Unidos, onde não existe puritanismo nem valores familiares, hahaha. Na TV aberta americana tem beijo gay – com um pouco de falatório em cima, mas TEM -, diferente da Globo, que acha que é um grande problema. No Brasil o falatório vem antes, dai as cenas – se chegam a ser gravadas – nem vão ao ar.
Posso dar um conselho? Não espera o SBT não! Vai atrás do DVD em loja ou locadora, baixe, mas assista! Acabei de terminar a 2ª temporada e é tão incrível quanto a primeira.
Valeu pelo comentário!